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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Dois éons e meio

(Ele disse “éons”
,
e antes nem era verbo
;
antes do regresso, o parto)
.

E sim,
o feno venoso
tolda a fome do animal manco.

O animal possui um nimbo
e seu olhar
sobre o chão
traz algo de petrificada paciência.



Coisifica.

E lá deixa falida a carne
(sobre a terra ensanguentada e sedenta de luz)

Ele (o animal) voltou a ser cosmos
como queria seu pai.

Mas é tempo outro.
É de ouro o martelo
e há vendas nos olhos vendidos
sob lápides antigas

e preços modernos.

Há ainda uma nuvem vagando teto
enquanto insetos sobrevoam a luz pretendida.



Serenidade e profusão de
gases.

O tempo e sua matéria se troçam

e se des

mat

erial



i

zam

em dez contados segundos.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Nunca mais

cais e nada

segredando vozes ao relento
entre ondas e conchas, vou
…
Navio que volta

traz

end
o

cortejo

uma bala
no bolso do pobre homem
— falsa esperança —

(
flash de olhos

amor

tecidos

)

a doce bala cola na embalagem envelhecida,
úmida.
Sor

vida
de ontem.

Maciez e gozo

: menino no cais:

duvida
e duvidando espera um pouco mais a vinda
de outras varridas almas
socorrer-lhe a pena
ou lançá-lo como pedra
ao
mar
(como um sopro pelas costas, um vento à janela)

ou
de volta ao cais?...

: “nunca mais”.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

eu nuvem

Uma pena solta

uma nuvem (seus desenhos)

divide caminhos

e pena


uma parte [pena]

pousa em

mim

outra voa por aí

sábado, 3 de janeiro de 2009

Um sempre jardim


Tenho um jardim
Que me visita
Sempre quando danço aquela valsa.

Há nele alguns espinhos,
Alguma farpa,
Sempre quando teimo aquela farsa;

Há também uma flor que se abre
Sempre quando em mim cabe
Mais um bocado de mim.


Nesse jardim só água
Há roseira
E céu.

Há um ventre,
Terra fértil,
Perfume de jasmim.


Há um templo onde pousam
Mariposas e querubins.


Esse jardim me vem
E é dia.
São lágrimas orvalhadas
Nas rosas
Mas são de alegria.

É um jardim que me toma o braço e não me deixa partir

Para um nunca voltar;
Para um sempre jardim.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Auto-retrato



Eu quis me ver
Quis me ver de lado
Me ver inteiro e despedaçado
Ver meus olhos sem espelho


Eu quis me ver auto-retrato

Eu quis me ver
Quis ser espectro de mim
De minha fuligem
Quis rever minha vertigem
Vertida em mim

Eu quis me ver
Nas coisas ao meu lado
Coisas belas e detestáveis
Quis que elas me fossem de verdade

Eu quis me ver
Em partes partido
Por
todos
os
lados

em cacos de vidro
em muros e grades

Eu quis me ver
Casa de mim
Em cada janela
Aberta ou fechada


Quis ser eu a cortina

Quis ser a fachada

ou o jardim

Mas nem sol havia nem flor nem luz
nem nada




Escher - "Auto-retrato"