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domingo, 27 de setembro de 2009

antes do sono

e se antes de dormir
o sono não me chegasse...?


o risco de correr
de olhos vendados

é, antes de tudo,
o de não ver os riscos
desenhados no caminho

pichados no muro

não ter suas cores
seus traços

nos íntimos olhares...

(e olhares oblíquos dissimulados).

e se antes de dormir
o sono não me chegasse...?!

domingo, 20 de setembro de 2009

Nem um instante somente meu

Nem um instante somente meu.

Milênios em branco e preto e nenhum arame
será igual às roupas brancas quando
dependuradas num varal.

Pois ao navegar em sua hora,
o instante, em novo movimento,
trará ao sol algum antigo desenho de
bandeiras ao vento.

(Baile irreconhecível a olho nu.)

Mas reconheço:
ele (o instante) também se ausentou
de mim
nas horas em que dormi.


Quando velou outros sonos, saciou e viu
outros instantes saciarem outras sedes.

Esteve perto e fugaz.

Não o capturei. Fui áspero às vezes.
Rude, talvez.

Mas tive sede. E água não me faltou.
Mas tive, em seguida, outras sedes
e fome.
E comida e água não me faltaram.

Não tive saída.

Voltei a visitar esquinas;
a dar voltas em torno da lâmpada.
Voltei a sentir fome e sede... (senti faíscas).

E aquele instante cada vez mais longe e de saída...

Uma vaga lembrança enquanto coisa
vagamente esquecida.

Mas, quando de sua volta,
vi em sua face outra máscara,
um novo escape em fúria e em gesto
se fez Vida-despedida...

Tentei segurá-lo, evitar a queda. O acenar de mãos...
Tentei novamente capturá-lo.

E, sem êxito a cada tentativa,
fui capturando meu próprio silêncio.
E logo, calei-me.
Virei um fóssil em vida.

O que mais queria era torná-lo
vida presente.
Mas sempre a fuga, o abandono. A despedida.

E por ter ido; silêncio ter sido, foi viajar palavra.
Terço de mim; do que sou: Palavra-instante
(l-e-t-r-a)
Tecido colande, apegado a mim. A palavra.
O instante.

A cola, o mel que se renova.


E por isso, não aquele, mas outros,
de outros,
de fomes e sedes outras,
outros instantes meus virão de novo
velar-me a vida.
Dar-me outra vez a voz. A saída.

domingo, 9 de agosto de 2009

Capturando ondas

Enquanto espero
teu nome se desenhar na areia

sou onda que vagueia…
E esse movimento, essa dança
suave respinga em mim
um resquício de maresia,
uma sombra daqueles teus olhos de ressaca…

     Ou talvez fossem (as danças) cadências de músculos
dançando

     num espaço-salão sem luzes e
adormecido,

    cujo tempo emparedado me lança
    para uma fuga

(como se um relógio parado e firme na parede de uma
antiga casa convidasse sua amiga traça para um desfecho).






Sou então a cavalgada.
O passeio sem garupa. Um nada.
E teus olhos ateus novamente vagueiam seminus por sobre as ondas
e assumem, na palidez do ar, uma aparência de astro em mutação.
Assim te vejo tão sempre nunca retilínea
que pareces enfim voar por sobre as próprias asas

            Mas fazes então tanta questão de continuar a dança das
      bonecas
e o trocar de sandálias e o pentear dos fios

                            embaralhados de sono
     que não vejo outra escolha senão te desenhar

(teu nome)
na areia do mar.

Mesmo sendo eu onda.

domingo, 2 de agosto de 2009

Fios de luz

"dança para a música do tempo" - Nicolas Poussin



As nuvens da noite
já se dissipam

e o tempo agora é de espera

por trás da cortina,
há uma fita de luz
(e somos todos fios
e luz

estrelas que brilham
quanto maior a escuridão)

e a dança do tempo continua

seu ritmo lento e contínuo
faz das horas passageiras viagens


e o caminho é de círculos...

E os sinais nos convidam para uma dança.
Em círculo nos somamos e de mãos
dadas dançamos
à procura do próximo passo.

É sempre outra dança.

A antiga música vestida de novos arranjos.

E os anjos com suas harpas
sopram aos ouvidos nossos
um vento frio e dizeres
zelosos.

"Somos todos fios
e luz.

Estrelas que brilham
quanto maior a escuridão".

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Estes olhos

Estes olhos desumanos
de tão humana carência
são como palmas e dedos
em silêncios e toques

São ardentes olhos
em retoque de almas;

o medo quando, em segredo,
revela a sua morada.

Estes olhos humanos
de tão desumana desgraça
são como a covarde palavra
que na boca falta

e mente o pedido,
o lamento —
a espera de uma criança
por sobras e doces

os olhos que
lacrimejam fantasmas e tempos


são olhos de luz
de tão iluminado desejo

Semente
de tempo germinado
em quintais de antigos
donos.

Semente
lançada aos ventos

(seus olhares);
ao traço e trança e risco.

Aonde te lançares.
Nos alcances.

Lá onde não se revelam.
Velam à deriva. Aonde o vento leva.
Os olhares
semeando tempo.

E estes olhos de luz,
humanos,
de tão carente segredo?!