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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

ócios do ofício












este o ócio

         que dizem
poetas
         a alma do negócio

mas se tal ofício
elide (ilude)

polícia e isca
(pois policia o cio e o ócio - suas iscas)

 este ofício então requer
  cio
ócio
   e
isca

(... silêncio)

_

,
salto (risco, traços)

um mergulho

ao abstrato
                mundo
das coisas
à pena
             palpáveis


este ofício
requer retorno à superfície
ociosa, peneirante

um atirar-se do lago plácido como
as folhas outonais boiando secas na superfície
do ócio


um respirar
     ofegante

a poucos instantes
do novo mergulho

este ofício
       o ócio
       o cio

a isca e o risco

     o ciclo

ócios do ofício

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Bolero

Para Roni

"Somos então
poetas".

Assim disse o poeta
quando defronte
de um tema ravélico pensou plagiá-lo.

Como um bolero de comparsas.
Um sopro orgânico na boêmia dos jardins noturnos.

Assim o plagiaremos.

Um bolero épico
no canto dos pássaros que agora
revigoram o dia.
Que agora saboreiam
o momento de campear nova trilha. A dois.
E em revoada.  

Até que assim, ao som de flautins embriagados,
e encaixados na claridade percursiva
de fadas enamoradas,
o lamento emudecido dê  
lugar ao esmero
trabalho que há no canto dos pássaros.

Ao louvarem o dia em sua sempre 
luminosidade rara.

Um bolero
em dança uniforme e
contagiosa.

Mas plagiado em seus trajes,
se descobre valsa.

E ao recuar sua dança,
ao retardar sua fala,
pede furtivamente aos da sala que não tolerem
farsas. Que dancem a dança
da então Valsa.

"Somos então poetas,
meu caro".

Dancemos a valsa.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

última cena

a Tazio Zambi



o erro na última cena
o xeque      
e a cara do guri arrematada de fome
                                 
este espasmo       
lúdico no ato  
involuntário de atirar-se da tela
                 
um rosto de criança  
uma palavra subterrânea  
e um desejo abaixo da pele    
                                       
tudo isso não revele   
o pulsar no peito   
a palidez da esperança 
a mão que esconde a bola de gude        
e o esguio olhar de fora
da tela

na última cena

no arremate                                  
   
no limiar do disfarce 
       
xeque-mate

domingo, 27 de setembro de 2009

antes do sono

e se antes de dormir
o sono não me chegasse...?


o risco de correr
de olhos vendados

é, antes de tudo,
o de não ver os riscos
desenhados no caminho

pichados no muro

não ter suas cores
seus traços

nos íntimos olhares...

(e olhares oblíquos dissimulados).

e se antes de dormir
o sono não me chegasse...?!

domingo, 20 de setembro de 2009

Nem um instante somente meu

Nem um instante somente meu.

Milênios em branco e preto e nenhum arame
será igual às roupas brancas quando
dependuradas num varal.

Pois ao navegar em sua hora,
o instante, em novo movimento,
trará ao sol algum antigo desenho de
bandeiras ao vento.

(Baile irreconhecível a olho nu.)

Mas reconheço:
ele (o instante) também se ausentou
de mim
nas horas em que dormi.


Quando velou outros sonos, saciou e viu
outros instantes saciarem outras sedes.

Esteve perto e fugaz.

Não o capturei. Fui áspero às vezes.
Rude, talvez.

Mas tive sede. E água não me faltou.
Mas tive, em seguida, outras sedes
e fome.
E comida e água não me faltaram.

Não tive saída.

Voltei a visitar esquinas;
a dar voltas em torno da lâmpada.
Voltei a sentir fome e sede... (senti faíscas).

E aquele instante cada vez mais longe e de saída...

Uma vaga lembrança enquanto coisa
vagamente esquecida.

Mas, quando de sua volta,
vi em sua face outra máscara,
um novo escape em fúria e em gesto
se fez Vida-despedida...

Tentei segurá-lo, evitar a queda. O acenar de mãos...
Tentei novamente capturá-lo.

E, sem êxito a cada tentativa,
fui capturando meu próprio silêncio.
E logo, calei-me.
Virei um fóssil em vida.

O que mais queria era torná-lo
vida presente.
Mas sempre a fuga, o abandono. A despedida.

E por ter ido; silêncio ter sido, foi viajar palavra.
Terço de mim; do que sou: Palavra-instante
(l-e-t-r-a)
Tecido colande, apegado a mim. A palavra.
O instante.

A cola, o mel que se renova.


E por isso, não aquele, mas outros,
de outros,
de fomes e sedes outras,
outros instantes meus virão de novo
velar-me a vida.
Dar-me outra vez a voz. A saída.