Foto - Edilane Ribeiro
Esta cidade,
— toda olhos alheios —
tem cheiro e cor
de quadro antigo;
tem o brilho enlatado
e esquecido
nas arestas do tempo.
Esta cidade
suspira peso. Gravidade
às avessas.
Corroída, anda
por avenidas
e pontes de idas;
em orlas ornamentais, de luas
envaidecidas.
Em suas esquinas de água,
crianças (e outras índias)
de derramados leites
vagueiam
como zumbis
à procura de leito e cruzes, pele e tinta.
São o óleo derramado na cidade. E a vontade. O gás
inodoro que permeia o ar. E o não-parar.
As crianças. Todas
somam-se marias e josés;
gracilianos e jorges. São serafins do norte...
Cristos e sereias crucificando mortes.
Esta cidade,
toda ressaca. É um mar que atrai
o que vier. Rejeita
tudo. Sobretudo,
aquilo que mais lhe tem fé.
(Oferendas e fezes
são como preces e prendas)
Sem pressa, a cidade
olha para o horizonte:
tardes de cervejas e areias nos pés aos montes.
Por vezes barcas à deriva... E sol.
Esta cidade o que quer?
Lamber o sol ou a sola?
A maresia que
cola?
A oca
dormida?
Ou o acaso
cabaré?
Lambe lodo e esmolas.
Folclore e terra preta.
Lambe fálicas maletas. E todo o falaz governo.
E lambe até
o pau de quem lho oferecer. É só pagar
se quiser foder.